9 de jul. de 2010

3h36m

3h36m. É a nova moda na casa, de tão cansada, dormir enquanto ponho ela pra dormir, com fome, de roupa, sem perceber, simplesmente entregar os pontos e apenas perguntar-me, passei a tranca na porta? E acordar no meio da noite, luz da cozinha acesa, me esperava?, fome, vontade de escrever, de fazer cocô, vontade de tudo – ela dorme, eu sonhava – paredes de velhos edifícios ruídas de cima a baixo, sim, ruínas, imprestáveis para se viver. A adolescência lá dentro, acontecendo de novo. Bolos murchos sendo confeitados, festas sem graça, procissões vazias, nem os passantes olhavam, não interessavam a ninguém, um meio dia sem sol. Há um roubo, alguma violência rápida, nada que me marcasse no sonho, nem me lembro bem. Acordo. Tomo coragem pra sair da cama. Penso bem se não deixo para comer amanhã, cagar amanhã, escrever amanhã – melhor não me arriscar, faço agora, amanhã, nunca se sabe. A internet está fora do ar e me pergunto se não é um sinal para que eu também me desconecte, durma, relaxe. Ando vendo oráculo em tudo. Não dou bola pros sinais nem pra internet que dorme – sou de diários feitos à mão, evoluí para arquivos word, e mais que isso é o que aprendi a amar, mas que vivo sem, com alguma dor, mas vivo.
3h57m, pensei que havia levado mais tempo nisso, pois, vou comer. A água de coco não foi suficiente, então suquinho de maracujá, pão e queijo. Chocolate? Boa noite.
4h14m. Me lembrei que o diário está na mala. E como deixar de comentar que as hemorróidas voltaram a atacar, como me calar diante deste fato? Ainda agora tive que enfiar meu dedo no cu, com toda delicadeza para arrancar o cocô sem forçar as minhas preguinhas doloridas, me lavar cuidadosamente e ainda sentir o cheiro da efedrina, que custa a sair. O cu de quem tem medo. É isso, acontece, coisa de quem tem. E usa. Os próximos dias serão para acalmarmo-nos. Voltar. Voltar sem ter ido. Hoje, já acredito que não embarquei. Acredito e gosto. Os dias estavam insuportavelmente intensos. A dúvida sobre levar Teresa ao médico ou não. A febre que acredito emocional vai e volta desde dia 7/7. Apenas febre, nada mais. Esperarei mais um dia. Agora ela está comendo um pouquinho. Agora voltei a fazer as coisas aos pouquinhos. E aqui vamos, mais devagarinho.

31 de mar. de 2010

Hoje, novela

Hoje, não receberei nenhum amigo, nem verei um filme, nem cozinharei uma receita nova, hoje, depois que Navajo Teresa dormir, vou curtir o silêncio da casa, ver novela no mudo, escrever por aqui, pegar ela nos braços e botar pra dormir de novo (ela sempre escapole e vem me dar mais um beijinho de boa noite, fazer mais um chameguinho, cheirinho, dengo). Novidade, nosso próximo número, que começo a ensaiar na segunda, já tem convite para temporada em Luxemburgo. É, começo a ensaiar segunda, das 18h às 22h, minha prisão domiciliar seriamente abalada. Di vai dormir por aqui até Lucien chegar. Minha vida apenas minha durante as noites seriamente abalada. Volto às ruas. O social, caminhar do Canela, via Vitória, até aqui. A noite do lado de fora.
Já não sei dizer do que sinto mais falta agora. Não faz nem 10 minutos, ela saiu da cama e veio na rede, onde eu estava, peguei ela nos braços, ela adormeceu em menos de 2 segundos, e eu fiquei ali... olhando a carinha dela, sono tranquilo. Que carinha linda..., está grande, 75 cm (desenhei ela na parede, dia desses, marquei a altura), está forte, benza Deus! Olhava pra ela, olhava, olhava, e ela ali, em meus braços, aninhada. Botei a bonequinha na cama de novo e vim pro computador, ser menos feliz, pra exercitar. 

Pensando em parar


Talvez tenha começado este blog tarde demais. Minha prisão domiciliar praticamente se dissolveu estes dias. A freqüência dos amigos aqui em casa, meus passeios noturnos com Navajo Teresa, e uma enorme ternura por nossos momentos juntas e a sós, o que defini para um amigo como uma experiência que tem um ladinho negativo, mas um montão de coisas maravilhosas. A intensidade com a qual vivo a minha vida é tamanha, que não dá pra muita gente. Ou seja, para ser o que é, tiha que ser assim. Lucien foi o primeiro a respeitar meu jeito de fazer as coisas, mas também não agüenta. Sozinha, é o meu jeito, o meu jeitinho. E aqui, sozinha com ela, estamos inventando os dias, cada dia um, uns mais legais, outros menos, uns aos quais apenas sobrevivemos (cansaço impede MESMO ver beleza e afins), outros lindos, dias pra sempre.
E fiquei pensando se quero, ou posso, dividir esse momento. Se dá mesmo para dividir com o internauta esta experiência, se vou querer ouvir a opinião de vocês, se vou querer responder os comentários, lembro de uma entrevista de Idea Vilariño onde ela comenta que se sentiu muito humilhada quando viu uma pessoa, que ela sabia que a detestava, lendo seu livro. Não detesto muito pessoas, mas fiz o exercício com uma delas, e não foi interessante imaginar essa pessoa sabendo de mim, muito menos fazendo um comentário... com quem eu não me sintonizo, eu não tenho contato, assim de simples. Um blog seria abrir uma brecha?
Na dúvida, Dona de quê? continua meu, minha volta ao diário, quem sabe não imprimo o blog ao final, e faço o poket blog?
Quem sabe?..., por hora, o que me importa mesmo é que Navajo Teresa, que teve uma febrinha de leve hoje de manhã (de manha?), está ótima, vai comer quiabada, sua comida preferida, e eu, que passei a noite em claro velando o soninho dela, me senti anjo de sua guarda, mais eficiente que chá de pitanga. É simplesmente uma delícia ser a mãe desta mocinha.

29 de mar. de 2010

E aqui vamos!

Um ano, um mês e alguns dias em “prisão domiciliar”, esse voltar pra casa com Navajo Teresa depois do nosso passeio vespertino, por volta das 19h e só sair de casa no dia seguinte. Viver a descoberta deste novo mundo: ser a mãe de Navajo Teresa, no mais das vezes, sozinha. Redescobrir os amigos. Desvendar meu casamento. Lavar minha infância. Cozinhar. Lavar fraldas na mão. Passar, nem fudendo! Enfeitar a casa. Ler pouco. Ver novela. Ir ao cinema. Minha amizade com Mary e Di. O skype. A varanda. A banheira. As visitas. O sabor das vezes em que saí de noite, contadas as vezes com apenas uma das mãos. A casa Fulozinha. Brincar pela casa inteira. Desenhar no chão. Inventar piscinas. Banho de mangueira. Poder tudo dentro deste nosso reino, absolutamente tudo o que quisermos. Liberdade sem limites, não há paredes que possam comigo e com ela. E só um ano depois conseguir escrever alguma coisa sobre isso. Isso... Não consigo nem definir, aqui, de dentro de tudo, em plena emoção, o que sente esta mulher que agora é apenas a intensa mãe de Navajo Teresa. Sentir falta da perfeição, tudo que faltou para o momento mais maravilhoso da minha vida não ter tido sabor do cansaço extremo, do isolamento, da falta de privacidade, da raiva da ausência de Lucien em tantos e tão importantes momentos. Meu novo corpo. Meu novo sexo. Trepar menos do que gostaria. Maconha. Vinho. Os dias, um hoje após o outro. Agora mesmo me dá uma peninha por não haver começado a escrever antes, mas é isso, um dia vivo, um dia escrevo. Vamos ver se dá pra correr atrás destes dias, e escrever sobre o que passou, antes que passe de vez. Navajo está crescendo, já já a prisão domiciliar vai virar uma outra coisa, e eu vou ter que fazer uma nova piadinha com meus limites. E enquanto as coisas não mudam de nome, apresento este blog, escrito por uma dona de casa, com perspectiva de passarinho. 

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